|
Mergulho na poesia alada de Adriana Montenegro
Adriana Montenegro lançou recentemente o seu livro “Pássara” que tem reunido uma poesia original, substancial e de relevante prestígio, tanto de talento como de expressividade poética.
Conhecer a obra de Adriana Montenegro tem sido uma das mais agradáveis surpresas que me tem tomado nos últimos dias.
Logo que recebi o volume fiquei maravilhado com os poemas “Cerro Corá”, “Canção de Criança”, “Tainá”, “Comunhão”, “Rastro de Cobra” e muitos outros reunidos no volume “Pássara”, recentemente lançado pela Aeroplano Editora e aqui noticiado.
Agora falo do que vi no livro: mulher, ruas, anjos, acontecimentos, infâncias, momentos, dores & superações, alegrias e maturidade, brincadeiras e sangue, tudo num agradável caleidoscópio poético onde a autora se interioriza na sua comunhão exteriorizada na assimétrica catarse da sua poesia.
Bela, mui bela: poesia & poeta. Destaco “Canção de criança”:
Sete anjos me beijaram
Esta noite, na Lapa.
Sete vezes sete bocas
Sibilantes
Tocaram minh´alma
Em sete repartiram
O pão da minha fome.
Sete rostos descarnados
E um pão.
Sete e sete setecentos
Tantas vezes sete vezes
(não sei que reza
Ou multiplicação)
Um tiro
O chão.
Sete anjos, sorrindo
Me pediram um trocado
E partiram, dependurados
Nos bondes de sua agonia
De última viagem.
Mas não só isso!
Em “Cerro Corá”, por exemplo ela chega assim:
“ O que dei à vida
Nem sempre foi meu melhor.
Guardei-os pros tempos bons.
Vieram?
(...)
Catei, comprei, não serviu.
Reclamei, não trocaram.
E o melhor de mim?
(...)
Aperto os lábios,
Contenho as blasfêmias que euro gritar:
Deuses surdos, imprestáveis!...
(...)
E saem todos para o trabalho,
Levando consigo, em segredo
O meu melhor esquecido.
Em “Tainá”, por exemplo, ela reverbera:
“(...) e mãos dadas olhar de candeio, cobalto
Felino, no amor de sempre.
(...)
“com jeito de não mais voltar ”.
E em “Rastro de Cobra”, arremata num dos versos:
“(...) Sou terra, pó que reveste o chão
Não cobiço o reino dos céus
Não desprezo os desejos da carne;
Nenhum mistério, evangelho ou deus.
Nasço e findo em mim mesma,
Sou meu próprio cerne ”.
Tudo vai se encaminhando para uma beleza de poema: “Quem me sonha”
“Quem me sonha e não disse
(...)
Como ousa sonhar-me assim?”
Assim é Adriana Montenegro: poeta, artista visual, designer e cursa MBA em Relações Internacionais.
Publicou pela primeira vez em 1986,na Antologia Mitavaí,organizada por Ivan Cavalcanti Proença e,anos mais tarde, participou de outras.
A partir dos primeiros estímulos vieram as descobertas: o poder transformador das palavras e das idéias e o acontecimento do poema: ritmo, sensação e pensamento.Então a literatura passou a ser vida e a vida, experiência sensível,uma das fontes do pensamento poético.
O próprio Ivan Cavalcanti Proença, ensaísta, professor, Mestre e Doutor em Literatura, diz no prefácio do livro “Pássara”: “(...) Não há menor chance de uniformidade métrica (isometria) ou presença de esquema rítmico ao longo dos poemas. O que tem como conseqüência: o ritmo é tudo, não pode ser negligenciado. E, no caso, é o que sustenta com muita adequação-precisão o livro de Adriana. (...) As visitas ao cotidiano se envolvem com o jeito poético muito particular de Adriana – as mulheres que, na calçada, vendem sanduíches de berinjela, as crianças da Lapa, a mendiga louca e obscena, a estrada Juiz de Fora-Belo Horizonte (...) O reencontro do (com o ) ontem é rechaçado enquanto saudosismo, nostalgia plena. (...) Quando Adriana sente que caminha para a confissão, para os versos fortemente confessionais, desvia rumo temático, ritmo, imagens.(...) Afinal, o universo poético de Adriana tenciona aquela carga sonora com o mais alardeado lirismo e, em alguns momentos, com a lembrança da tradição oral, folguedos, de nossa gente (...) Resta ler, e sonhar, através dos versos de Adriana. Um livro para nossa história, relevante, de poesia”.
Com isso, recomendo aos amigos & amigas leitores, uma leitura ao livro “Pássara”. E para encontrá-lo, é só acessar a Aeroplano Editora na seção “Publique” deste Guia.
|