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MANOEL BENTEVI

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Manoel Bentevi desmanchou o Nordeste em poesia

 

Luiz Alberto Machado

 

O título pode parecer para lá de pretensioso, mas não é.

 

Na verdade Palmares, uma cidadezinha encravada na região Mata Sul de Pernambuco, sempre pariu gente que se achou maior que o próprio tamanho. E o pior: tem mais gente que é menor que a própria medida. Mas não só isso, claro, exemplos típicos das raríssimas exceções é a poesia de Ascenso Ferreira, o poeta original do Modernismo, segundo o Mário de Andrade; a narrativa ficcional de Hermilo Borba Filho; as litografias e desenhos de Darel Valença Lins; a pintura renascentista de Murilo La Greca, tudo isso sem contar com Jayme Griz, Raimundo Alves de Souza, Telles Júnior, Juarez Correia, Luiz Berto, Eniel Sabino de Oliveira, Afonso Paulins, Gilberto Melo, Vilmar Carvalho, Mauricio Melo Filho, Elita Afonso Ferreira, dentre outros. Todos esses filhos paridos pelas terras palmarenses.

 

Tudo isso quer dizer que entre mesquinharias e mediocridades, Palmares pariu gente de boa cepa. E da melhor, inclusive, contrariando a maioria esmagadora de onanistas, prestidigitadores e subservientes.

 

O que quero chamar a atenção mesmo é que Palmares pariu também um originalíssimo poeta popular chamado de Manoel Bentevi. Ele não é tão conhecido assim, mas é pura injustiça, porque quem faz esse verso não pode ficar no anonimato:

 

Da vida nasce o saber

Da seca nasce o queixume

Da mulher nasce o ciúme

Do olhar nasce o amor

Da doença nasce a dor

Do justo nasce a verdade

Do mau nasce a crueldade

Do fuxico nasce o enredo

Da sugestão nasce o medo

Do coração, a maldade...

(Do olhar nasce o amor, do coração a maldade)

 

Revolução foi quando ele em plena Casa da Cultura, em Recife, no mais retumbante martelo agalopado, o poeta chamou o povo na grande dizendo:

 

Se eu chegar no Recife aperriado

Eu acabo com todas as fortalezas

Vou no Palácio do Campo das Princesas

Paro todo movimento do Estado

Na Assembléia não deixo um deputado

Na zona não fica uma mulher

Acabo as forças armadas que houver

Tranco banco, instituto, inspetoria

Fecho hospitais, detenções, secretarias

Só funciona o Recife se eu quiser.

 

Prendo guarda civil, cabo, soldado,

Comandante chefe do Estado maior

Prendo tenente, capitão, prendo major

Paro todo movimento do Estado.

Prendo telégrafo, imprensa, consulado

Emissora não deixo uma sequer,

Prendo a Lloyd, a Costeira e a Panair

Paro o trânsito, não passa mais ninguém

Da estação central não sai um trem

Só funciona o Recife se eu quiser.

 

(...)

 

Mas isso foi um sonho muito pesado

Que eu sonhei certa vez quando dormia

Um povo no ouvido me dizia

Paro todo movimento do Estado.

Acordei tristemente atribulado

Vi que era uma coisa sem mister

Não encontrei uma pessoa sequer

Que me dissesse o que tinha acontecido

E uma voz me dizendo no ouvido

Só funciona o Recife se eu quiser!

 

Não será necessário dizer a inflamação que cobriu a platéia que antes dele falar nem existia e quando terminou tinha para mais de mil aplaudindo freneticamente.

 

Pois bem, o livro “Desmanchando o Nordeste em Poesia”, foi publicado em 1986, pelas Edições Bagaço, e reúne 3 livros do autor: o de glosas, o das poesias e do romance de cordel.

 

Nas glosas a gente encontra essas pérolas, como:

 

Na vida ninguém confia

Em nada sem ter certeza

São obras da natureza

Tudo que a terra cria:

Gente, ave, bicharia,

Tudo começou assim.

O homem é quem é ruim

Nada bom ele planeja

Por muito forte que seja

A morte pega e dá fim.

 

E também essa:

 

Naquele tempo odiento e obscuro

Em que a ciência era tragada em um vaso

Todo o mundo imerso no atraso

Eu olhei na janela do futuro:

O panorama da vida é muito duto

E o destino do homem vem traçado.

Eu, pra ver se obtinha resultado,

Do além e de coisas mais incríveis,

Penetrei no setor dos invisíveis,

Vi o mundo sorrir do outro lado.

 

E num tom que reúne a poesia e a hilariante tirada:

 

Da bobina para o distribuidor

Há um cabo que passa uma centelha clara

Meto o pé no arranco, ele dispara

Toda vez que acelero meu motor

O combustível entra no carburador

A entrada de ar transforma o gás

Com a compressão que ele faz

Forma o jato, o êmbolo vai subindo

Vai queimar na cabeça do cilindo

A fumaça da gasolina sai por trás.

 

 

E a resposta na ponta da língua ao desaforo:

 

Minha carne só é nervo e cabelouro

O espinho de juá bate e não fura

Minha saliva salva qualquer mordidura

Se a jibóia morder por desaforo

Tiro o veneno da bicha faço soro

E dou vida a qualquer um ser vivente.

Seja qual for a qualidade da serpente

Estando mesmo quieta ou assanhada

Por acaso ela me dando uma picada

É capaz de ficar sem nem um dente...

 

Já no livro das poesias, encontra-se, dentre outras, o Desmanchando o Nordeste em Poesia:

 

(...)

Você vê quando ali ao por do sol

O cenário fica muito mais bonito

O tetéo na lagoa solta um grito

E a araponga por detrás do arrebol

Na biqueira da casa o rouxinol

Lá por traz da montanha a cotovia

Desperta a passarada e um novo dia

A aurora com sua rubra cor

É bonito um poeta trovador

Desmanchando o Nordeste em poesia...

 

Como também no poema O Caiador, profissão do poeta:

 

(...)

Não trepo mais em escada

Nem tão pouco em prédio alto

Não posso mais dar um salto

A força está acabada

Dou alguma pincelada

Mas não em toda ocasião

Seguro o pincel na mão

Com atenção e cuidado

Pincel mole, desgraçado...

Só dá pra melar o chão.

 

O lírico e belíssimo, Uma casa sem mulher:

 

Onde mulher não existe

Vivente nenhum resiste

É uma caverna triste

É coisa que ninguém quer

Eu vos digo com certeza

Para falar com franqueza

É mais triste que a tristeza

Uma casa sem mulher...

 

E o engraçadíssimo O mundo só está prestando depois que eu não presto mais:

 

Quem é novo e tem dinheiro

Faz na vida o que bem quer:

Nunca lhe falta mulher

Neste país brasileiro.

Se eu fosse moço e solteiro

Vivia nos lupanais

Nos cabarés, nos fuás

Com as meninas brincando

O mundo só está prestando

Depois que eu não presto mais...

 

Por fim, no livro do romance de cordel, é encontra A grande discussão de um suleiro com um sertanejo:

 

(...)

Já fui uma vez ao sul

Ver se ganhava dinheiro

Mas topei com o suleiro

Chamado papa-muçu!

Pançudo do bucho azul

Vive nu de se esconder

Todo inchado de beber

Cortado de piojota

Aquilo é uma derrota

Do sul não quero saber.

 

(...)

 

O sertão só é lugar

Para quem nele nasceu

Criou-se e envelheceu

Diz que é bom de morar

Eu não vou nem passear

Por aquela região

Odeio de coração

Já anotei no caderno

É um verdadeiro inferno

Não dou valor ao sertão.

 

(...)

 

Bravo, nobre sertanejo

Eu gostei da discussão

Mas o suleiro também

Teve boa notação

Enfrentou bem direitinho

Versou no mesmo caminho

Improvisou na razão.

 

O espaço por mais que disponha será sempre muito pouco para mostrar a poesia de Manoel Bentevi, bem como de explicar a sua poética, a riqueza dos recursos, as modalidades utilizadas, enfim, preferi destacar o texto do poeta sem que ousasse comentário mais técnico a respeito, porque senão, terminaria aqui com trocentas páginas.

 

Como o objetivo é trazer a poesia de Manoel Bentevi, uma poesia exemplar e do tope dos mestres Leandro Gomes de Barros, Cego Aderaldo, João Matias de Athayde, dentre outros, fica aqui o registro para que se possa cada vez mais aprofundar os estudos e se conheça a obra deste poeta pernambucano.


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