SobreSites > Poesia > Resenhas > Onde Há Fumaça, Há Fogo
Página Inicial do Guia
Editorial
Portais Poéticos
Poetas Consagrados
Contemporâneos
Poeta do Mês
Entrevistas
Resenhas
Onde há ...
Artigos
Bibliotecas Virtuais
Concretismo & Afins
Cordel
Haikai
Revistas Eletrônicas
Associações
Publique
Eventos & Concursos
Fórum
Fale com o Editor
  Poesia
Luiz Alberto Machado
Editor do seu Guia de Poesia na Internet
Google
 
Web www.sobresites.com
ONDE HÁ FUMAÇA, HÁ FOGO 

Saiba das atualizações por e-mail


Quando escrevi a crônica "No reino do mamoeiro", não só estava dando o meu depoimento pessoal por haver nascido numa cidade encravada na zona da mata sul de Pernambuco, onde predomina, até hoje, o fausto arrodeado de miséria por todos os lados dos parques industriais açucareiros do Nordeste. Muitos desses empreendimentos na gangorra do balança mais num cai, quase vendendo a imagem já de massa falida. Outros, nem tanto, quase. Um testemunho que se alonga desde o Rio Grande do Norte até Alagoas.

Não só isso, reitero, também fora resultado de leituras várias, desde Gilberto Freire, passando por José Antonio Gonsalves de Mello, por Manuel Diégues Júnior, por Sérgio Buarque de Holanda, bem como, de Costa Porto, no seu "Os tempos da Praieira", alegando que "Iniciado o programa povoador em moldes sérios, com o donatarialismo de 1534, a visão de Duarte Coelho logo percebeu que o futuro da terra estava na agroindústria canavieira (...) o solo litorâneo foi sendo distribuído de sesmarias, desenvolvendo-se o plantio dos canaviais e as instalações dos primeiros engenhos". E desde a época em que o próprio Duarte Coelho, em carta a el-Rei D. João III, somente instalava "os que são poderosos para isso: daí porque os senhores de engenho constituíam o grupo privilegiado do tempo, a aristocracia, o elemento de prol, de maior prestiígio social, os bons e melhores". Surgindo daí os feudos que mais tarde reduziriam a realidade vivida até hoje nas regiões canavieiras nordestinas. 

É sabido que os portugueses quando aqui chegaram, vieram com o cristianismo, trazendo na verdade, exploração e fortuna para os exploradores, ou melhor, como bem diz Anísio Teixeira: "não vinham organizar nem criar nações, mas prear.... esta obra destruidora e predatória nunca se confessava como tal, revestindo-se, nas proclamações oficiais, como falso espírito de cruzada cristã". E foi com esse espírito que nasceu a cultura da cana-de-açúcar no Nordeste brasileiro e dele vive até hoje.

Um outro exemplo pode-se encontrar em Oscar Mendes, nos seus ensaios críticos reunidos no livro "Tempo de Pernambuco", onde registra as memórias de um senhor de engenho, Júlio Belo, que assim se referiu sobre a usina: "(...) É o monopólio, o açambarcamento das terras, quase sem tolerância de uma distribuição mesmo pouco equitativa dos lucros da agricultura (...) É quase o espírito da avareza. (...) uma grande dama muito gorda e ventruda, uma imensa saia de cauda e brocardos, um formidável chapéu de cano, muito desembaraçada e impertinente, orgulhosa e autoritária - representaria bem essa importantíssima personagem coletiva - a Usina". 

Também, Moacir Medeiros de Santana, no seu "Contribuição à história do açúcar em Alagoas", já detectava os desmandos dos usineiros, desta feita a poluição dos rios provocados quando "A usina, fazendo neles o despejo da tiborna, poluiu suas águas, provocando a destruição dos peixes (...) Ademais, a poluição vem de propiciar o desenvolvimento da malária, pela eliminação dos peixes larvófagos, faculta também o aparecimento de endemias como a amebíase e a esquistossomose". E mais adiante assinala que: "Não constitui realidade a existência de usineiros que aplicam fora de suas fábricas de açúcar os lucros por ela proporcionados? Não existem usineiros que nem mesmo aparecem em suas usinas? (...) por outro lado, a espontaneidade com que alguns usineiros se desfazem de seus estabelecimentos agro-industriais é prova da falta de preparo e de desamor à faina açucareira".

A bem da verdade, portanto, a minha crônica tomou corpo mais substancialmente com as leituras nos originais preliminares do livro "Onde há fumaça, há fogo - crônicas de uma usina de açúcar", do agrônomo pernambucano, José Moura, recentemente publicado pelas Edições Catavento, em Maceió. 

Fui acompanhando a evolução dos escritos até a redação final, onde pude mais me assenhorear do tamanho do desvario que envolve o cultivo e a industrialização dessa gramínea.

O livro é interessante, verdadeiro e até hilário, tendo em vista que o homem é um animal que costuma rir de sua própria desgraça. 

E tudo começa com uma usina fictícia, denominada Boa Safra que, com certeza, representa o protótipo de qualquer parque industrial do setor açucareiro nordestino. No início, o óbvio: a botada, a hora mais cheia de euforia, alimentando a expectativa de dias melhores para toda população e escondendo a frustração que dela resultará nos anos vindouros. A botada não foge a regra: é festa! Até padre vem benzer, abençoando os donos e chamando a responsa dos trabalhadores em colaborar, em todos os sentidos, com a iniciativa dos donos que merecem todos os lucros financeiros que deus disporá em sua justiça divina. Amém. A esse chamamento, todos os fiéis dedicam o ânimo da carne, a vida e a alma por dias ininterruptos de safra.

Nos capítulos seguintes a organização fabril é esmiuçada nos seus mais variados e mínimos detalhes, com o conhecimento de causa daqueles que foram tragados por noites e dias, labutando no interior da hermética atividade industrial. 

Tanto é que mostra as jogatinas, os interesses, o comércio, as relações trabalhistas, a vigilância, o apadrinhamento, as falcatruas, o suborno, o mandonismo, até a pejada quando se anunciam os desastres da safra emendando-se com a entresafra. Daí, então, chega até a fazer uma comparação das usinas alagoanas com os países do planeta, ocasião real de levantar gargalhadas as mais folgadas pela constatação criativa de relação. Sem contar com os acidentes, perjúrios, disparates, cobiças e fraquezas que são reunidas no relato, sempre acompanhado de uma epígrafe apropriada, pinçadas do anedotário da arrogância.

Não se trata de um libelo, pura e simplesmente, de forma alguma. O autor consegue tirar desse ambiente irrespirável situações jocosas, acontecimentos despropositais, lembranças inevitáveis e saudável desintoxicação do que tenha lanhado sua carne, consumido a sua vida e revogado todos os seus horizontes de esperança. Com o seu relato, o autor sai cônscio do sortimento de vivências que ilustram as experiências de quem sempre esteve do lado mais fraco da corda nem alcançando os restos das beiradas do rico bolo do desenvolvimento brasileiro. 

"Onde há fumaça, há fogo - crônicas de uma usina de açúcar" é um livro indispensável, principalmente neste momento em que se avizinha a hora do vamos ver da nossa cidadania. É fundamental para se conhecer o outro lado da moeda. É inestimável como contribuição corajosa. Portanto, recomendo a sua leitura. 

Projeto SobreSites | Sala de Imprensa | Usabilidade
Política de Privacidade | Condições de Uso | Torne-se Editor