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Luiz Alberto Machado
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CINCO POETAS E SEUS RIOS

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Quando recebi em minhas mãos o volume “Rios”, por sinal, muito bem confeccionado, bem acabado, capa excelente, enfim, uma edição primorosa, fiquei exultante e comecei a festejar a reunião de cinco poetas, alguns conhecidos, outros nem tanto, fazendo um livro bonito de se ver.

Como a primeira impressão me causou espanto, fui logo ver a editora; Íbis Libris, do Rio de Janeiro. Bom, muito bom. Gostei. Mas gostar mesmo, foi quando comecei a folhear, não me contendo e logo lendo de uma vez. Nossa, que bom! Lá estavam Elaine Pauvolid, Márcio Catunda, Ricardo Alfaya, Tanussi Cardoso e Thereza Christina Rocque da Motta, cada qual falando a seu modo do Rio de Janeiro e dos seus rios próprios.

Primeiro a Elaine Pauvolid, essa carioca irrequieta que conheci através do Aliás , uma revista eletrônica semanal de cultura e de muito bom gosto, que se encontra alojada na rede no sítio Alma de poeta , do Luiz Fernando Proa.

A poeta chega no livro com “ Donde evade ”, eis o seu caleidoscópio onde a autora amanhece na perspectiva do depois, jogando consigo as próprias interações que se produzem na imanência da flagrante realidade e no processo de reproduzir-se integrante desta. Ela e o seu Rio; e o Rio dentro dela.

Sobre o livro, ela diz na entrevista concedida ao Guia de Poesia : “ Donde Evade é um título que me alegra muito. Criei para um poema e fala de onde vem o fluxo constituinte do que se projeta como poema. Achei que seria um bom título para o tema que escolhi para a antologia, a metafísica. Pois donde evade a poesia é algo um tanto fora da matéria, não acha? Os poemas que estão no livro fazem parte de livros inéditos registrados. Pretendo publicá-los todos, mas, agora sem pressa, porque esta antologia amenizou a ansiedade nascida do fato de tê-los prontos, mas, sem publicação. Agora posso planejar melhor. Tenho isso a dever a Márcio ”.

Da poesia de Elaine na antologia, destaco “ Por misericórdia ”, “ Banco dianteiro ” e “ Infância compartilhada ”, poemas que retratam muito bem a inquietação dela. Prova disso, é o que diz sobre ela, o grande Gerardo Mello Mourão: “ A poesia de Elaine pode ser percorrida com uma senha permanente: a busca da memória, não apenas e não tanto no passado,mas no quotidiano, onde ela vai construindo, dia a dia, sob o signo misterioso da saudade de hoje a saudade do futuro, em que o presente constrói a saudade do passado. Pelos caminhos de seus versos passam todas as direções do mundo, as gatas de cios clamorosos nos telhados, as crianças perdidas, azuladas de fome e de frio, as prostitutas, os caçadores de dinheiro, a bacanal dos pré-santificados e a presença perturbadora de sempre: aquele deus que insiste em aparecer e ser invocado ”. Mais que isso, só lendo Elaine Pauvolid.

Em seguida vem o Márcio Catunda que conheci na antologia. Poeta, advogado e diplomata nascido no Ceará e que tem uma extensíssima obra.

Na antologia ele traz “Engenho urbano” que foi contemplado com um comentário de Jarbas Júnior: “(...) exercitando a metáfora com rara perícia, o poeta Márcio Catunda, de forma hábil, conseguiu captar estas antíteses líricas e sociais, alternadamente, em poemas de grande plasticidade visual, cenas idílicas de praças, logradouros, ruas antigas, bosques, praias, o Cristo Redentor, os célebres lugares da visita turística, junto com a denúncia crítica, às vezes irônica e angustiada, do paraíso carioca, em seus absurdos, misérias e injustiças. Merece leitura atenta esta experiência poética com perfil de crônica delirante. São belos lagrantes evocativos, depoimentos comovidos, marcados pelo verso livre, com insólitas variações rítmicas. A linguagem sugestiva, de vocabulário rico, explora diversas possibilidades expressivas: ora revela ambientes impregnados de indelével valor afetivo, ora compõe pequenos painíes dramáticos da urbes maravilhosa,tocado de estilo próprio, de sensibilidade talentosa ”. Verdade, pois vê-se de início a própria gênese da descoberta e daí tudo explode no trâmite da paixão com a identificação do poeta com o ambiente: toda altaneira realidade sendo sugada pela captação da maravilha e do envolver-se voluntário como quem se faz lídimo amante da mulher mais amada. Daí vem toda catarse, toda entrega, onde destaco “ Urbanização ”. E mais vem adiante: “ Confissão ”, o “ Jardim Botânico ”, o “ Perfil da cidade ” até fechar com “ Itinerário nômade ” e “ Divertimento no Rio ”. É como se estivesse perambulando incólume por todas as ambiências múltiplas das diversas faces do Rio de Janeiro. Eu mesmo percorri cada local dali com a carga do poeta. Eu vivi o Rio.

Chegou, então, a vez do Ricardo Alfaya, que eu já conhecia seu trabalho faz tempo, quando eu editava o tablóide impresso lítero-cultural Nascente . Foi por ele que pude conhecer o Nozarte . E trocamos envios do Nozarte e do Nascente , um para o outro. Inclusive, publiquei várias de suas poesias na seção “ Poético ”, duas páginas dedicadas exclusivamente à poesia, e o Nozarte na seção “ Intercâmbio ”, onde eu divulgava os alternativos e publicações nanicas que explodiam nesse nosso Brasilzão.

Dele, recolho as palavras de Rodrigo de Souza Leão: “ Ricardo Alfaia é um poeta que consegue colocar as sutilezas a serviço do bom poema. (...) além disso, representa o artista atual e está antenado com tudo o que ocorre no mundo poético ”. Concordo em gênero, grau e número com Rodrigo. Vez que Ricardo, esse advogado e jornalista que escreve poesia, conto, crônica, resenha, artigo e ensaio, é uma pessoa agradabilíssima. E em conjunto com a sua esposa, Amelinda Alves, vem realizando um trabalho que merece ser destacado pela qualidade, constante teimosia e dedicação.

Na antologia ele traz “ Sujeito a objetos ”, onde o poeta vai articulando e experimentando sua diversidade e riqueza de construir a idéia e o verso com propriedade. Destaco “ Tabuleiro de dramas ”, sintam: “ O tabuleiro de dramas está cheio/ cavalos de ouros / valentes caras-de-pau / damas à beira das camas / canastrões à beira do caos / Há vilões de montão / toneladas de heróis de araque ; muitos escondem a fraqueza nos fraques ”.

Outro que também merece destaque é “ Nu e cru ”, onde diz: “ Preciso de roupas / fantasias que cubram meu corpo / para me descobrir ”.

Excelente o “ Vapores de março ” que finaliza: “(...) Para todo chapéu uma cabeça breve ”. Mas o leitor, com certeza, vai se deliciar quando passar por todos até chegar no “ Internota ” e “ Tempestade cerebral ”. Vejam e constatem.

Depois vem Tanussi Cardoso que eu conheci na rede. Quando vi pela primeira vez um poema dele, corri pro computador e ousei mandar um mail para ele. Mandei, na maior cara de pau, ousando mesmo dizer:

- Tanussi, você é poeta bão!!!!

Vasculhei na rede alguma página que tivesse poemas de Tanussi e não encontrei. Foi aí que ele gentilmente me sinalizou alguns poucos poemas na Usina de Letras. Fui lá. Li tudo que havia lá e aplaudi de pé. Depois foi que fiquei sabendo de muitas outras coisas. Querem ver? Vejam só. Dele diz Affonso Romano de Sant´Anna: “Sua poesia é mesmo da melhor qualidade: densa, criativa, reinventando-se continuamente”.

O Carlos Nejar fala: “Poemas fortes, com sotaque pessoal – coisa que vai escasseando no mercado. Sabe o ouro do silêncio e a prata da revelação”. Precisa falar mais? Basta lê-lo. É suficiente. Mais nada.

Depois que fiquei sabendo que ele além de poeta, é contista, crítico literário e letrista. E na antologia ele assina sua autoria com “ A medida do deserto e outros poemas revisitados ”, que ele mesmo, na entrevista concedida ao Guia de Poesia , se reportou: “(...) é um livro feito com carinho, onde aproveitei para reler alguns poemas que curto muito, e onde selecionei poemas inéditos que me parecem de algum valor literário. Resta-me agradecer ao Marcio pelo convite, a Thereza pela beleza da edição, e à grande poesia de meus companheiros na coletânea. Agora, é aguardar o próximo ano, e a possibilidade de um novo livro ”.

Não direi mais nada, mas asseguro: vocês não sabem o que estão perdendo, vejam urgentemente a poesia do Tanussi Cardoso.

Por fim, chego até Thereza Christina Rocque da Motta que só conheci na antologia “ Rios ”. Foi onde fiquei sabendo que é poeta paulista e que, além disso, é editora, tradutora, professora e advogada. Tem toda uma estrada, como os demais integrante da antologia e que pode ser constatada na entrevista deles aqui no Guia de Poesia .

Para terem uma idéia de quem se trata, dela falou Luiz Carlos Lisboa: “ Para ela, poesia é vocação, não um destino. É seu modo de viver, nunca uma escolha. É sua maneira de ser no mundo, nada mais que isso. Desse modo, sua poesia tem, na serenidade e na simetria que a regulam, a dose certa da loucura humana e a exata medida da paixão divina ”. Verdade. Vejam só um poema dela “ Amor e Asa ”: “ Te ouvi, palavra, sôfrega sobre meu alimento. / Te transformo, aguda, / no revés do sonho / de outra tessitura. / Te empunho, lume, / fonte feita de asa / e féria, / a casca a romper o fruto / (carne sob o invólucro da perda). / Nada dito ou feito, / vaguei sob sombras, / oculta ”.

Sobre sua poesia, Olga Savary afirma: “(...) descobre-se o vigor das palavras, imagens, oxímoros, metáforas, formulações, ritmos, fórmulas, acontecimentos da alma, coração e mente, figuras da linguagem altaneira a nos comover, nos fazer pensar e sem as quais nosso mundo seria mais vazio e pobre ”.

Destaco, ainda de Thereza, o poema “ Narciso ”, onde a poeta é enfática: “ Serei a seca nuvem sobre o árido horizonte a viver de passar e nunca ser ”. E em “ Poema ” assinala: “ Cerro os olhos para reter o poema ”.

Bem, depois de tudo isso, meus amigos e amigas visitantes e leitores do Guia de Poesia , só tenho a dizer o seguinte: leia “ Rios ” e, com certeza, verão cinco poetas que merecem ser aplaudidos. E de pé.

 

 

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