|
Aroldo Chagas e os olhos do crocodilo
Luiz Alberto Machado
Lembro-me agora quando publiquei meu primeiro livro. Havia toda uma ansiedade e incerteza. Pudera, contava eu com 21 anos, reunindo poemas escritos na adolescência – ah, essa que só me livrei, de mesmo, depois dos quarenta. Verdade, não de tudo, ainda resta muito da adolescência em mim.
Pois é, influenciado pelo pai achegado aos versos tocados ao violão - boêmio dos bons, afeito às loas e toadas -, além das leituras desde menino sempre assíduas de Ascenso, Bandeira, Drummond, Pessoa, Shakespeare, Whitiman e tudo que me caísse às mãos, quando achei de, por obra de não sei das quantas e tantas, venta empinada e cabeça cheia de idéia, a cometer poesia. Um desplante! Depois foi que percebi que ainda hoje estou aprendendo.
Sim, foi por essa época que o poeta e editor Juarez Correia chegou lá em casa e disse: - Vamos publicar! -. Eita, de susto, cheio de empáfia e insegurança, tasquei pra ele o volume com mais ou menos umas 50 garatujas que eu denominava de poesias. “Uma poesia no mundo”, esse o título. Que ousadia, hem? Ainda bem que o poeta/editor me convenceu a não cometer essa petulância e deixei com “Para viver o personagem do homem”, título de um dos poemas do opúsculo, tudo a ver.
Foi tudo muito doloroso, coisa de marinheiro de primeira viagem mesmo. Revisões pra lá e ajeita aqui, coisa ali, arte final, uma via crucis. Quando tudo estava nos conformes, levei para a gráfica. Maior sufoco para pagar. Era uma edição de mil e recebia os volumes em pitadas de 300 exemplares, conforme amortizações. Claro, o gráfico temia um calote, né? E lá ia eu, primeiro, na legendária Livro 7, em Recife. No lançamento esqueci até da caneta para os autógrafos e quem me salvou foi o escritor Amílcar Dória Matos. Depois, lancei todo cheio das pregas na Biblioteca Pública Municipal Fenelon Barreto, na minha cidade natal, Palmares. Bote pavoneado nisso, coisa de ficar crescendo de não se caber por dentro e se agigantar maior que o próprio tamanho. Nem mesmo as palavras do colunista e crítico do Diário de Pernambuco, Marcus Prado e, depois, do escritor e poeta Geir Campos, me aconselhando a rasgar tudo que eu havia escrito e tentar ver se, daí pra diante, nascesse alguma coisa que prestasse da minha lavra. Nem mesmo isso abalou minhas orgulhosidades bestas. Pudera, das mais de 50 caratonhas reunidas, só se salva uns dois ou três gatos pingados e asseguro que não chega nem a completar meia dúzia e olhe lá. E mesmo os que se salvam ainda carecem de apreciação mais acurada, senão servem mesmo pro lixo. Já tentei até sair catando para tocar fogo em cada exemplar do milheiro que se espalhou por aí, ainda entocado em algum cantinho duma prateleira de estante. Seria melhor mesmo.
Lembrei disso tudo quando tive acesso ao primeiro livro do poeta Aroldo Chagas: “Os olhos salientes do crocodilo”. De sopetão, o titulo logo me trouxe outra lembrança: do magistral álbum “Clara Crocodilo”, do Arrigo Barnabé. E a curiosidade aumentou mais ainda quando li: “Aroldo Chagas por ele mesmo: Escrever sempre escrevi. Desde que me abriram as portas do alfabeto e me deram um lápis e um papel. O que faltava mesmo era a conexão elétrica aos alto-falantes que levassem para além do pátio o som dos meus resmungos e desabafos. (...) Pronto. Esta foi a senha para a liberação do outro lado obscuro do operário (...) Com Os Olhos Salientes do Crocodilo e o Premio de Edição, no VI Concurso para Edição de Livros da Clesi, apresento-lhes um pouco da poética desta minha trajetória e o definitivo rompimento com o anonimato e o silêncio!”.
Comecei a ler o volume e logo me deparei com “Um dia a mais”:
(...) E eu,
entre as minúcias da paisagem urbana
sigo o meu curso normal
rumo à floresta desencantada
para mais uma página
do meu romance operário.
Logo após, me deparo com “Procura-se um amigo”, onde:
Não se requer
Os predicados do meu pastor alemão,
Tampouco tão aferido
Quanto a um César – superlativo de irmão.
Apenas emprestar
Um instante no seu ouvido,
E, se inevitável algum punhal casual,
Seja no peito, ao menos, bem conhecido.
A cada poema a surpresa agradabilíssima de conhecer os versos deste poeta que me deu o prazer de ler “Seda”:
Sonho te ver
Num longo de renda
Tramado de versos.
E sob cada palavra urdida
Meus olhos descubram
Um pedaço da sua alma...
Até chegar ao último verso
E então contemplar
Meu país pródigo em deleite.
Não parei mais e apreciei agradavelmente poemas como “Mosto”, “Versos na parede”, “Essência”, dentre outros, razão pela qual quero agradecer a existência do Clube dos Escritores de Ipatinga – Clesi (veja mais sobre o clube na seção Associações deste Guia), uma entidade criada em 1985 que atua no Vale do Aço, promovendo através do Circuito de Literatura realizado anualmente prêmios literários, festivais poéticos, publicação de livros, edição do jornal com as atividades desenvolvidas, visitação às escolas e intercâmbio, tudo destinado ao fomento e a realizar suas ações com fins especificamente literário e cultural. Por isso, obrigado e parabéns Clesi.
Também quero agradecer a oportunidade de conhecer “Os olhos salientes do crocodilo” que é o seu primeiro livro. E por ele nasce a promessa de muitas outras publicações da lavra deste ótimo poeta. E só para ter uma idéia, veja o que disse sobre o livre a professora, mestre em Literatura Brasileira e doutoranda em Educação, Micheline Lage: “(...) O sentimento de não-pertencimento a lugar algum e o ferro na alma, foi o legado do pai a este poeta. (...) demonstra uma dureza na escritura moldando palavras da mesma maneira que se molda o ferro gusa quente para transformá-lo em aço. Assim, os poemas são cortantes, pungentes, queimam o leitor em uma grande caldeiraria cujo léxico revela um clima de opressão e tensão inerentes a uma região industrial como o Vale – de aço e de lágrimas? Aroldo, operário de palavras, funde em seu caldeirão pedras, farpas e cacos, a terra seca, a rígida crosta, a vida inoxidável, as contíguas estruturas, joga tudo na betoneira do coração, agita, e devolve ao leitor seus retratos perenes: versos de concreto”.
Por isso digo: Aroldo é poeta. Tem a dor e a felicidade da poesia. E isso de forma humanamente expressiva: o deleite e a amargura de viver. Cada palavra constrói o verso carregado de misturas vivas: emoção, crueza, terra e sentimento. E com o olho aceso do crocodilo, vai ao limite: esfrega ferro no aço para dizer que o que passa espremido na fricção deles é a vida. Parabéns, poetAroldo.
|